domingo, 17 de novembro de 2013

Exílio parte 47

A relaxadura dos músculos é um estado delirante de transe.
Não há amarras, não há doença: é faca coçando a veia, trazendo condimentos de tesão e penso que sortudos são os que não precisam amar exacerbadamente.
(Meu corpo é tão miúdo,
- Tentei apossar-me de outro homem e terminei por desamar toda uma vida.)

Eu e Gato Syd jantamos.
Tomo o leite fresco, ele come a ração.

(Depois trocamos)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tempus fugit

 I
O temporal é sediado pelo cobre da minha cabeça.
Há raios por toda a volta e pavor da condução direta.
Todos os afogados estão agonizando comigo - esconjurados e maltrapilhos
Aguardando a maravilha que é a exaustão - e pena ser somente nesse estágio do ponteiro alucinado, que marca a pressurização do meu vácuo.
Não há como estar aqui e não engrossar - na redenção das águas
E de tudo, o que prende-me é o canto das gaivotas e suas inúmeras flanges.
O resto arranca-me sequenciais bocejos, amparada pela falta de carinho pesado dos teus passos -
vindos de onde os acordeões ofegam,
rodeados de inúteis paliativos, cansados de agressividades - 
silenciosos como nossos corpos já azedos.
No paraíso que não chega após vinte anos de febres internas, esbravejo:
estorno ou sossego! Amor estorvo!
Querendo sutil, voltar a ser embrião.

II
Apaixono-me por seres pinçados na areia em que, incansável, encalho. Mostrando os dentes tenho dúvidas sabáticas, suportando vilões mais treinados do que eu na arte do desdobramento.
Todos os homens de sangue grosso, fazem-me constipar intuições. Agora não há mais salvação do procedimento:
evaporarei com minha acetinada frigidez.

III
Choro no vale de escolher tocas.
Confiem quando o tal fim que a intuição vos fala, em altíssimas afetações gritar.

domingo, 29 de setembro de 2013

O cão-homem e a amante

Uma vez cachorro de rua, sempre um cachorro de rua.
Ela ia todas as noites, no sereno do quintal cobrí-lo - alimentá-lo, acarinhá-lo. E o cão, rei da própria decepção,  sempre no estado apático - ou confortável- da grosseria.
Contraindo sarna, pegando a mãe de alguém, o cão de rua deve ter sempre ao menos um conto de amor incompreendido na vida. Se desiludindo, num tempo com estimativa de dois anos, até lembrar do já acinzentado amor: agora já residente da atmosfera de goiaba, que contra um muro é explodida, produzindo um cheiro doce demais para ser bom.
Pulgas saltitam pela cama, encontrando-se com o desconforto de dormir com ela - um luto vivo e reluzente como nunca ao lado!
O cão dorme nos postes, mas também vaga com o coração amarrado em fita de cerol - músculo em descompasso - e amanhece como felino no extremo da indisposição. Estirado, metabolismo baixo e bafo venenoso - na paisagem toda bege de suas manhãs.
O cão da rua nunca saberá abandonar o negrume do espelho d'água, que em frente aos seus passos, persiste em se espelhar: cego, cabisbaixo e com dores curvatórias na coluna - negando também qualquer compressão, ainda que metódica, de amasso prazeroso em seus nervos.
O homem-cão é de uma alvura mal penteada, com aquelas patinhas delirantes, que fazem o louco de amor perder as estribeiras tentando encoleirá-lo.
Deixou-a: só mais um corpo retalhado por suas mordidas e estupros consentidos, que não poderá doar os próprios órgãos após a morte.
Foi nascituro polido em misticidade e agora vive em nudez sem vermífugo. 
Cometeu essa manhã mais um crime, conservado no corpo dela em mais um machucado pútrido e insensível.

Epílogo:
Toda a insanidade do mundo, talvez seja a certeza do chamado energético do amor, que - antes mesmo de se consolidar - acaba.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Do bebê ao extravagante, tento permanecer uníssona...

O aniversário da floreira

Na banquinha de flores em baixo do viaduto, há uma imensidão de sementes entristecidas.
A vendedora de flores vê suas preciosas empoeiradas na rua expostas e despedaça-se, caindo no choro que quer respirar querendo arrancar o coração com as mãos.
Um drama cíclico que não sabe o que sente, nem se mente.
No cordão da calçada, um estranho estaciona a moto. Observou a floreira jovialmente comer bolachas lambuzadas de saliva e lágrimas. A banquinha é sua moradia, mesmo encontrando-se no meio dessa região dormente - quase em amputação - da ruína da cidade.
As noites de primavera que antecedem seu aniversário, foram sempre uma seleção natural de obras de arte, amenas e lascivas. Mas hoje o calor da rua seca a água de qualquer coisa orgânica, elevando - em tontura ou álcool - toda a espécie de mal estar súbito.
Ela vai num expresso bala para os seus vinte anos. 
Mais algumas noites cheias de estrelas no coração da estadia no inferno e já será possível escutar os sinos de espera de fim de temporada.
Vive de gestos, de soslaios e difusos olhares. A rua é a cama e queria mesmo encontrar o equilíbrio, para ter o tal do auto conhecimento tinindo.
Nó na trepadeira, rastro de amor. Clama baixinho na noite:  "busque-me, por favor, já é hora, não há mais energia".
Um amor de pétala saboreado com especiarias, todos os dias -  inevitavelmente acenando em postura irônica de adeus, marcando o tempo com sapatos cósmicos e pesados. 
Abanam para ela, solenemente, a cada meia noite. Anda ofegante, carregando as flores de notas dissonantes.
Todos passeiam a vontade, ignorando seu exílio passional, paliativo e de imaginários amigos.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Equinócio de setembro

Meu pecado de feriado - em ilusões inexoráveis feitas de chorume, órgãos inteiros fora de controle escorrendo fétidas sensações brutais. 
Ele afronta-me tipo fera, sem perspectiva alguma para um grande encontro. 
Minha paixão colérica.
O desejo infla-se - espero-o, cavalo rei, impacientemente com os mamilos rijos de frio. Mas não há passo para dar em situação de tão requintada ruptura - de puro desprezo. De sua vida nada sei, és meu desconhecido enraizado em tantos elementos envolvidos na paisagem. 
Já na noite mais alta, apenas dois corpos dispersos em solidão. Sabia só dos meus pensamentos, confessos na confusão.
Acordas pela manhã já em passos pesados - ainda que de meias ternas de tanta brancura. Mateias então na varanda solito: porque motivo? Atiro-me só, afogando-me em saudade do nunca acontecido. Ainda assim, limpo tua casa de campo como se fosse a última das estâncias.
O medo controla todas as extremidades do comportamento. 
Era tão cedo e o dia ensolarado parecia ter domado todos em ressaca, confrontando a noite mal dormida. Qualquer objeto é o travesseiro mais confortável do mundo - desde que seja do ser idealizado. Dormi num canto impessoal, o colchão fino sob a lajota rachada - sendo tu, equino, o homem afastado nas baias.
O mito do cavalo branco é desfeito.
Em suma, tudo é a pluralidade do purgatório que nos encontramos. Um dia após outro é demasiado lerdo, secando e esmorecendo os sentimentos. Sirvo-me do tempo como única alternativa.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Gatos estão sempre perdidos nos quintais das histórias.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Permanências

A minha saudade é sufocada pela quantidade de roupas que visto em cada manhã polar. Fica dentro, arroxeando o peito, dificultando a respiração. 
Não há quem pegue em minhas mãos, de unhas mal cuidadas e peles mortas desfiguradas por entre meus dentes.
A minha leveza é tão frágil, que uma casca de banana no caminho é o bastante: escorrego nos antigos rastros. Tenho serenidades bem estendidas e extensas confusões sempre.
O raciocínio é simples - o mal da humanidade é conseguir domar a emoção.
Enquanto a culpa sucumbir-me e a flor de jasmim alimentar-me, eu estarei viva. Levando mais dezenas de vezes o mesmo susto corriqueiro, ao não encontrar meu gatinho escondido em brincadeira. Apresentando-me para mais um chinês perdido que, como eu, abrigaria-se abaixo de uma marquise fugindo da chuva. 
Tateando as ondas do sol refletidas na luminosidade do mar.
Enfim, permanecendo no aguardo da saída do calvário como uma mãe a espera do parto. Quanto tempo posso permanecer indeterminada? 
É muito tempo de fisgadas frias. Será mesmo só uma manhã polar?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A intransitividade

Naquela cedura da noite, Lia já estava petrificada em posição fetal, alumiada por uma velinha confortável de lamento. Arrumando suas tralhas lindíssimas, que tomam vida própria e escolhem em que canto da casa querem ficar. Escrevendo coisas que nem lembra, num papel que esqueceu.
Como disse, as luzes se apagaram e Lia ficou só - acendendo então Chet Baker no rádio.
 "Que tormenta, ter a libido frágil para a química corporal! Vejo-o, desejo-o na mais suja ardência. Só ele: gozar mediocridade, comemorar três segundos de ausência de passado e futuro. " Dizia - mexendo de fato os lábios - durante as noites com as amigas, por meio da linguagem ininterpretável que as mulheres possuem.
Uma delas, dera a dica de como proteger-se da chuva de meteoros neon que a atormenta a alma há anos: vestir sua boina marrom sempre. Almoçar, sobre ela. Impregnar cheiro de cigarro, nela. Fantasiar o cheiro fascinante do perfume do casaco dele, nela - feita de lã cor de terra.
O problema de ele nem sequer, a querer - estaria resolvido! Algo a amaria de veneração.
Mas passaram-se dois dias e em uma conversa aleatória, surgira o nome da antiga paixão de carne e osso -  e uma dormência nas palmas das mãos após ler a palavra "hoje" entusiasmada, irrompera seguida daquele nome. E mesmo com a boina, o dia é estragado apenas por uma verdade que não se aceita. 
"Quando há paixão furiosa e nefasta, garrafas são quebradas covardemente na rua, após uma noite de lua que envolve e surpreende. " E com isso o ego interno voltou a afrontá-la, vendando sua sabedoria em sussurros.
Com mais uma variação do mistério, falta-lhe pluralidade. Volta ao vinho seco.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fardo

Vim no navio cargueiro,
Suportando toneladas de serpentinas.
Lá embebi meus olhos em uma solução de conserva
Como verme autista de genes puros, 
entupindo-me de acessórios artificiais
                                                [ lancinantes.
Já vivi todas as cores de brumas;
a tampa de cada buraco selada de espuma
e o ensurdecedor lamento das sereias à noite
Sugando em paixão furiosa
                                                 [e nefasta
Que passa a comer tudo o que vê pela frente e possui belos olhos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Dormindo na ruína

Parece que o ar é maciço ao ponto de ser palpável, enquanto Lia chora a memória que sente falta unicamente de ti.
Tudo produz som; as fotografias escalam cada canto da casa. Escuta palmas vindas de trás das janelas grosseiramente enormes, da casa negra e amadeirada. O relógio engraçadinho da mesa, ora anda ora para. A passagem do tempo é fragmentada - deseja regressar dez meses.
Já? Questiona-se. Ele correu e os joelhos cansaram-se logo.
Embora o universo seja o mesmo, canta todos os dias uma ruína intraduzível, aguardando o dia em que não haverá ninguém para produzi-la ou conduzi-la.
Atravessa crises constantes e fluorescentes de adrenalina, tropeçando em atração explosiva por outra pessoa, sendo fatalmente envolvida no nada que também produz ilusões. Pobre apaixonada, a definhar.
Frequenta aquele seu bar preferido, sentindo-se uma centopeia abrindo túneis, atravessando um dos corredores com luzes vermelhas - apelidando-o de "corredor da paranoia". Passa por ela um cheiro forte de cigarro - sente novamente o gosto dele na boca.
É uma extremista irracional.
Será que é conseguir mover-se pela libido, a tal felicidade que as pessoas sentem? Sem estar deprimido o suficiente para suprimi-la? Sinal se saúde, sendo a libido boa a libido extrema e todo o resto libido deprimida?
É tarde, três fumaças fundem-se no clarão amarelo do abajur: incenso, chá quente, erva - ferozmente acomodada. Arranca cada pedacinho do rímel dos cílios, para segurar o término de mais um dia - acolhida nas paredes da casa pintadas de um cinza necrotério.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Exílio parte 46

Sobre a origem da vida
A linguagem das notas musicais muito próximas, produz um terceiro som feito da vibração mais barulhenta. Essa é a base para o norte da vida.
Mas a energia é tão flexível, fácil cair no caos! Tornar-se um molusco em uma concha de acústica repetitiva - com falta de destreza, ambígua.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Exílio parte 45

Sumi na névoa quase palpável da madrugada. 
Ninguém atrás ou a frente, a procura de minha perdição solitária.
Rondo o universo sozinha cambaleando na berlinda e fluidifico meus demônios, onde a fragilidade das notas musicais é extrema (de angústias espessas)
e quase não ouve-se, apenas sente-se.
Danço adivinhando-as.

Aviso de agosto

A agonia que sinto agora é a última morada do espírito.
É agosto sempre em minha alma e inverno por todo lugar onde piso.
Escrevo essas frases nua, contornando o canto da cama com meu corpo atirado - em extremo desabafo.
Perdi minhas roupas soníferas, permaneço obrigatoriamente dispersa no pânico da lucidez.
Amigos, não sigam o cupido bêbado que, libidinoso, desfila. É sua missão diabólica e nada mais.
Há o costume da conspiração: de abismar os olhos e beber do vinho mais seco.
Sugiro que sumamos, que voltemos para o asilo de onde nunca deveríamos ter saído. Onde vagávamos pelo corredor seguindo o cheiro dos amantes, rastejando e entrando em ebulição a cada mínimo gesto (gozo) do ser desejado.
Preste atenção: não há solidão nem luto nem cinismo nem vazio mirado contra nosso peito. Há o luto o cinismo e o vazio de cada um apenas.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fragile jazz

Espremendo-me por vários mundos, tento fundi-los numa mesma atmosfera e sou sequestrada.
Meu corpo desce escada à baixo, após ouvir a música que vinha do salão principal - mesmo entorpecendo-me paralelamente e muito distante - é onde encontro meu centro de utopia: para o fantástico, para o aspecto rítmico, para o tipo dançante, para o pouco espaço.
Sou a tontura indefinida de todos os presentes, pendendo para os lados. Rogo para esfaquearem-se em seus beijos longínquos. Procuro o consolo: a languidez é meu afrodisíaco.
Quanto mais de perto te olho, mas bonito ficas e deitei meus olhos verdes na expectativa. Mas não sinto vibração alguma, apenas o frio congelando meus pés e subindo para as panturrilhas.
Na meia luz da manhã, alimento-me do choro exaustivo e nauseante de uma tola em espera. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Poema de Gabriela Leal

Para Lia
"O querubim mais velho se matou
Umas 66 vezes
Depois pediu afastamento por escusa de consciência.

Foi enviado então o único que quis
(convites para festas todos aceitam,
mas depois que fazem um trabalho fogem de desespero
ou viram sádicas crianças até caírem no vício e desaparecerem em algum pedaço de terra)

Esse vinha triste de nunca ter encontrado um amor para velar
E quando chegou lá viu o tamanho do estrago:
O outro havia abandonado eles sozinhos por muito tempo,
Cada um definhava morrendo um dia por noite separados,
Se alimentando do amor no ar que sopravam oceano à fora um para o outro.

Já com a primeira flecha que o outro enviou (e que ideia a dele, veja você) a sereia havia rasgado o corpo para poder dançar como no conto
E ele aceitou um laço de gravidade, um anel e o azul melancólico dela como a cor do seu coração.
Ela cicatrizou com sua pele, seu sangue e aceitou um anzol no céu da boca.

Logo reparou que ela não dormia nem comia direito
Ele bebia cada vez mais
E os dois estavam sempre largando o pó ou indo ao pronto socorro.

Ou olhando a lua tentando fisgar o anzol ou apertar a gravidade
Suando em sonhos
Morrendo um dia por noite
Ao lado de qualquer uma, qualquer droga ou um gato.

Ela escrevia, ele compunha
Ela dançava, ele ensaiava,
Os dois tinham um projeto.
E a partir daí o novo anjo começou a entender:
O outro era um maldito esteta
E eles são uma obra se transformando
- rasgando aos pedaços quantas vezes for preciso
pra ficar ir cada vez mais alto.

A questão era como ajuda-los a partir daí
Sem entrar em delírios de esteta também
- olhar para as frágeis criaturinhas
(há quanto tempo sem comer?)
Nem esperar a arte pela arte, nem dominá-los pela arte

Talvez apenas trocar a lâmpada de um farol
E eles reencontrem o caminho
Depois de beber tanta água escura
Para esvaziar o oceano e ficar apenas deitado sob a lua,
Ficar doente da lua,
E esquecer o outro."

Gabriela Leal 
Julho/2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Junho, em II atos

I Dedicatória
Revirara o mundo dos sonhos. Suara meu corpo em transparência etérea. 
Cada qual criando o próprio tempo de perceber o cansaço, a maciez e o fardo -
todos tão próprios e tão próximos.
Em meu olhar difuso, repouso comprimindo o que ao amor antigo pertence
Embalando à vácuo (em fenda do tempo) e em sonhos afoitos envolvendo a face do amante - 
como uma manta de sangue empapando minha vida.

II Observação
Apaixonado por outra.  
Ela chegou de trem e agarraste-a pela mão, pontualmente as 15h, em uma data qualquer de junho. Cecília é o nome dela, que caíra na peneira sentimental dele.
Houve delicadeza e elogios - palavreado que somente consegue expressar coisas do mundo da forma.
Cheguei à estação quase escorregando na margem dos trilhos, dobrando a esquina, asquerosa em meio a rotina que tanto me consome: dinheiro para fingir-me de independente, dinheiro, para beber até libertar um dos seres que habitam em mim, dinheiro sorteando quem desejo ser.
Pedi aos pombos que ali fatigavam ainda mais a correria, licença para chorar.
Fiz gestos de ludibriamento - e tu de ausência de amor.  
Ocupei meu assento na omissa ocupação de ser amante.
Levou-a para seu apartamento, finamente encubado com todo cuidado: folhas pegando fogo, incenso queimando, perfume borrifado. 
Mas a atmosfera tóxica comprimiu, ar novo não entrou. Cecília sufocou-se em vinte minutos.
Na espreita, o acolhi com o cadáver e disse:
- Observe, é a revoada de fumaça! Preste atenção: leve as cinzas, ajude a evaporar o lodo que contém a água, desove as sementes para a nova floresta.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Solitude

Debruçada na janela, esquecera de que é quase inverno, que chovera o dia inteiro e que ainda despenca uma sutil garoa. Quando voltara-me para o quarto, uma sensação vertiginosa  beirando o afrodisíaco, selara-me - como se com nitrogênio congelasse-me. 
Passei a tremer de um frio incalculável. É estranheza da auto suficiência, que abre suas trilhas pelo meu ser - batendo os dentes. 
Solidão extrema, que ao mesmo tempo não poderia ser preenchida por alguém: agonia da solitude. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Exílio parte 44 (No tempo de molho...)

(O tempo passa camuflado. Não acontecera nada de novo, só as falsas promessas em renovação. A noite afastou-se do total criminoso, para só um lapso - de algumas horas - de silêncio absoluto.)
Respiro mutação porém permanência - de supersticiosa esperança, mas por ti não mais luto.
Tu és o show a parte,  ovacionado na surdina - nos silenciosos espetáculos.
Nas cartas de amor guardadas, só eu sei das juras pensadas - desesperadas
Para hoje ter sido só engano teu!
Insensata buscando a suprema aceitação, lamento o vazio de todos. Até mesmo nós dois: sonhos que tornam-se espadas vorazes. 
Paro, estática, encarando a leveza do espelho oval na parede. Mergulho em quadros familiares, transparecendo até serem figuras nítidas da tua face sorrindo. Em fantasia admirável de carinho, nunca recordara tantas expressões de amor bagunçadas.
Condeno a vida plena por apenas algumas memórias e demoro para crer: é final de junho! Tempo, fragmente-se já!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Choramínguas

Enrosco os cabelos na rede de pesca. Não obstante, sou capturada com anzol.
De gancho fincado no miúdo lábio inferior, afundo debilitada - não trazendo à superfície belas histórias prosaicas.
Sem opção, bebo a água em que estou envolta. Líquido mentiroso e peçonhento; tremo de um frio de espécie não catalogada - fico como réptil contorcendo-me
Envenenada.

Tão minguante quando a lua desta noite. Coberta pelas mínguas assíduas - ausente de tudo que pode ser significante.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Por detrás da porta

Lia suspira profundamente: o coração está em bateção de válvulas, clamando pela companhia e insubstituível presença. O dia nasce através do janelão aberto; pede em sigiloso sentimento que as sensações que percorrem seu corpo exausto, agarrem-te e tragam-te para fora do sono em que te encontras.
Na sala de estar alheia a solidão impera, medo não sente. O vazio domina na mais maldosa índole: deixa na borda do fosso alguém permanecer, atrapalhando e ameaçando a imperatriz da ausência. A esta hora, o observador está debruçado na boca do buraco - acolchoado em sua cama.
Não há como sentir plenitude ou felicidade, a angústia prorroga-se como em passe de mágica e somente suas esperanças são milagres impossíveis. Condescendente, Lia ri com o canto da boca para não chorar por ser ignorada por todas as entidades.
Roga para que abras a porta e tenham as mãos acopladas. Nega, em trovoadas, aquela que lhe é estendida, sem cansar de terminar a jornada em frente a mesma porta chaveada. Deseja estar em teu cômodo!
Ouve o tic-tac do relógio pensando ser o zumbido de abelhas e, em confusão, sem bússola  desliza até a frente do teu quarto. Equilibrando-se na ponta dos pés ergue o braço de punho fechado. Exita três vezes tocar a madeira branca; queria mesmo era ser fumaça para aproveitar as fendas. Finalmente o som que escuta são suas próprias batidas leves. Uma, duas, cravando então os dentes na maçaneta - despertas em pulo do engasgue que é teu sono.
Ele inclinara-se contra ela, com tom de piedade na voz de quem pede perdão pelo próprio egoísmo, mas nenhum remorso por negar o aconchego do seu aposento. 
Lia está em cacos - espalhados por diversas casas.

A leveza do ar

Lágrimas são a amputação da mesmice, lavando a lona com chuva na floresta virgem.
Integrara-me saltando de ponta para a luz, medindo forças com a treva.
Dentes-de-leão proliferam-se desenfreadamente no campo, querendo ser confundidas com alvo algodão.
Embrenhada na mata, tomara em mãos a flor selvagem, que suplicara ao pé do meu ouvido  para ser soprado -  pois cansara de ser cetro exibido.
Sopro mansinho, carícia de libertação!
Escorra, coração desvairado 
Contornando o que sentes por entre as pedras - trincado.
Imploro uma clemência,quiçá piedade 
polindo-te com a mais bruta flor.
Sem mais demora,
sucumbo-te no próprio amor.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sequestro

Caminharam juntos, cada um para seu rumo, abrindo sutilmente em pequenos feixes a vontade de seguirem juntos. Algazarra cósmica, mal-aventurada e dissimulada, a persegui-los juntamente com a lua cheia - holofote - que imperara naquela noite, sem importar-se com a separação que houvera na esquina onde divergiam os caminhos. 
O que Lia desejara fazer, no íntimo? 
Quisera encerrar-se numa concha, onde tua voz reverberasse - de ressaca - em todo seu ser ressabiado. Esculpiram na argila sem precisar escutar som algum: como escultor que não escuta, erguendo-se na beleza do erro. A desconcertara com feições de menino, sequestrando o vagão de carga de seus pensamentos ligeiros e contínuos (...)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Exílio parte 43

O teu anjo é uma figura delirante, dia após dia na subida e descida oscilando: negativo - positivo.
Que tontura o castiga! Não sabe ser tantos ao mesmo tempo, passa a inventar parábolas quase crísticas  em soluções anômicas, para segurar as extremidades...

Disfarce

Moçoilo, deixa gaiato ser adjetivo e não sinônimo!
Aguardo-te no saguão do cruzamento, enquanto tocas o caminho por onde passas - sovando  as paredes com a ponta dos dedos de borracha.
Moçoilo, queres deslizar de gaiato
desejando a rampa de beijos roubados - 
amando a pista de decolagem?
Não há, moçoilo
o tão inebriante quando pairar, rumando para a terra da rainha, em coroação no ar.
Vá ver tua amada! Gaiato contido 
- lá é teu paraíso!

Frigidez

Esfrego uma mão noutra, pesadamente em deslizante aperto -
em mais novo não-intencionado acasalamento.
Odor em vapor cutâneo, deixando-me em sensível refresco natural:
hortelã, gengibre, capim de limoeiro.

O sol revelando a sujeira do aposento que chamo de meu,
pó, cabelos - na capsula de viagem no tempo
Visto também nu, como quando nasceu.

Mar de lençol verde, erguendo inúmeras duplas rosadas -
insaciáveis e macias,
em ode que o toque comprova: não há elixir para ser degustado.
Secura de indiferença, no silencioso atracionário.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O destino

Nenhuma dádiva é concedida para quem não é merecedor. Porém, se não souber administrá-la - do ser ela é tirada.
Armas para a evolução, rumando para o retrocesso - falta de gratidão imensa!
Não há sustentação. É solidão medíocre certa.
Brincando com a sincronicidade!
Dissolver o que é nada é a única maneira, para o infeliz que vai desmoronando em sua caminhada...
Extinções de engrossar a alma.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Meu holofote é a lua.
E entre mim e ela
trocentas ostentações
ornamentadas.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Brecha no cotidiano

Quando trabalho estressada e apavorando-me com o ritmo do incansável relógio, o onírico cerca-me, ronda-me, impõe sua presença e  nunca permito-me fugir. A chuva cai do nada, avassaladora em seu choque com as telhas do pavilhão acima da minha sala-aquário, onde o céu treme e torna-se carrancudo - cerrando o sol em uma urna temporária.
Chegara então um senhor até mim, explicando cada detalhe da sua vida ao longo de 71 anos. Netos, filhas, mulheres- uma delas juíza. Resido - jazendo com o astro rei - em frente a uma rua submissa em minha concepção de detalhes - deixei-a passar e este senhor, no último grau de rouquidão de voz, transmutou por completo a paisagem desgastada que eu até ontem enxergara.
"Fazem 44 anos... Casei nesta rua. Lembro-me deste prédio, há quantos anos existe? Era uma sexta-feira, chovia muito, meus amigos diziam que era o choro das minhas namoradas."
22/03/013

Pólvora invernal

Acreditara que o frio abraçaria-me pelas costas, de mãos leves e gélidas.
Surpreendi-me então com sua hospitalidade, dando boas vindas maledicentes a bordo de uma chamada telefônica sem jeito, inexperiente.
O dia de resgatar os blusões chegara! 
Roupeiro maciço, corpo magricela quente, bochechas coradas de aquecimento alinhavado.  
Esvazio teu cheiro no armário:
é chalé de invernadas bidimensionais -
no compartimento isolado.

Suéteres etéreos. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Exílio parte 42

Ordinário é o equilíbrio, que nunca aparece ou desaparece dosadamente.
Descrevo-me no presente momento como sendo uma viajante galaxial, em busca de um esquilíbrio para ser meu bichinho...

quarta-feira, 20 de março de 2013

Sobre dissonâncias atemporais

I:
No aconchego de casa, o acolhimento verdadeiro fora vibracional. Capturara meu âmago e pulsara vorazmente - a partir do início do ritual musical na câmara pautada, originando a primeira nota a chegar pelo mensageiro até mim.
Percebera elementos fortíssimos do feminino, escalando como trepadeira e chegando a percepção dos fluidificados pela arte - burlando a obstrução imposta pelo próprio criador e intérprete da mesma. Tremeras como folha seca, de expressão oca e desmotivadora para o público e companheiros de epopeia.
O termômetro é a paixão, que existe claro e luminosa apenas sob tuas lentes, desejando transcrever para o entendimento geral o universo paralelo que se impõe sobre toda a vida. Conduzira-me com frenesi alarmante, até esse recital! Pensando e não entendendo: logo perdendo-te por completo nas linhas e anzóis de pensamentos.
Necessário para o crescimento não é recrutar músicos, analisá-los como grande Henrique V. Com a essência desconjuntada, procurar teus cacos em faces distintas seria uma imaturidade imensa.
Segurara-o pela mão, querendo soltar a cordinha. Vá! Morrer de inanição, crédulo do egocentrismo. O presente é onde construímos o futuro e minha energia entrara em choque por onde estive. Não sentes, logo não tocas: executa com alucinações drugues intrínsecas. A falsidade das pupilas famintas acabá por digeri-lo, caro amigo. 
Talentoso intrépido, homo-cosmic-habilis, apenas.
II:
Atravesso mancando minha desacoplação, término de um ciclo arcaico de meu espírito. Sinto o portal nas proximidades, derramando sobre mim a solidão gostosa que é a de ausência de concentração. Não é para a consciência plena que a vida caminha, mas para a evolução subjetiva - aquela íntima.
O gosto amargo e pesado da lástima, aceito ressaltando sua extinção no menor tempo possível. Meu perfume fora imperceptível em sua floraldicência - doce e excêntrico ao extremo. És a pintura do macabro! Adornado de dourado - puxando amarelo de gema de ovo na moldura. Não sei dizer a quem pertence o quadro, por que não conheces a ti mesmo.
Caira a chuva grossa, arrancando-me da saleta transbordante de peças de um xadrez alquímico, obtuso. No preto e branco, o xadrez é de magia negra: ilimitado voodoo com peças  de carne fresca. Vence o mais usurpante.
Gravo em braile na testa!
Desopilo em posição convalescente, de costelas fraturadas: as superiores trincadas, as flutuantes quebradas.

domingo, 17 de março de 2013

Luping emocional

Em brados controlados, o garoto esbraveja palavras de confusão funda em medíocre português. Mentes tudo de mente vazia, grafando incongruências tão quebráveis quanto meus pés de bloco de gelo - visto calçados de iglu, para sossegar a ardência que escorre por minhas pernas.
Sufocada por uma sacola plástica - gratuita em mercadinhos cotidianos e nunca considerados - teu quarto é de prateleiras de suposições e ofertas ilusórias de preço baixo: são impostos camuflados!
A madrugada é confeitada com um orvalho tão frio! Luto para não senti-lo resfriar os cabelos. Hora réptil, hora aracnídeo, hora lebre - saltito pelos reinos naturais, buscando adjetivos e um consequente quarto de hora de plenitude.
Quero calmaria mas sou escrava do desejar-te visceral, da linha do tempo onde sou designada a ser farol. Estendo a mão transcendental à ti - empoeirada de granulos de diamante. 
Luping!
Aguardamos o arqueiro noturno invadir nosso lar indisposto e pachorra, estalar nossos ouvidos e fechar a mão de concha em meio seio esquerdo, como taça de vinho (...)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ritalina

Rainha da desatenção, humilhada no déficit. Expressão cabisbaixa, fragilidade de burrice causadora de raiva. No extremo da mediocridade, meu sistema nervoso entra em colapso enrustido: infarto calada.
Vou alçando voos e se conseguir soterrar a imaginação, bônus do aeroplano...

sábado, 9 de março de 2013

Sapatinho aspiral

Fora preciso  calçar sapatos de dança folclórica russa dois números maior, por conta de um tornozelo superficialmente exposto. Incômodo superado às pressas pela manhã, sendo o rumo do dia extenso e pensado com clareza somente após a blindagem de protocolo, baseada em duas xícaras de café. Montada em alguma espécie de animal terrestre-aquático, caminhara ao longo das horas arrastando retardo nos passos - pés presos em dois cascos de tartaruga folgados.
Em fusão delirante com o desejo de ser somente espírito errante, quando dera-se conta de que a vontade não era tão eficaz à ponto de vir a tornar-se real, entrara em uma caverna estreita e calada. O único eco era o estrondoso ruído de um balanço que peregrinara pelas ondas sonoras até conhecer seu fim naquela abóbada ordinária e seca.
Para sair,  árduo combate na calçada - de lábios de azedume feito Saara e carne infrutífera. Em síntese, ser inorgânica é sonho. Até mesmo o amado frio perdeu-se chocando-se com ondas de calor psicossomáticas da pele. 
Cólera que apossara-se em forma de palma de mão enrolada no coração! Costelas impiedosas trancafiando o músculo visceral. Passam-lhe por debaixo das grades costelares um único indício de luz natural: pão d'água.  Aquela palma de mão nunca deixará a mesma posição? A queda das barras ósseas deveria acontecer em um solitário golpe certeiro, que concederia a liberdade ao espectro  prisioneiro - exilado.
Conduzida pela memória arrombara a porta de casa. Tirara as meias, há sangue recente manchando os dedos: espanto pelo incompreensível que verte da pele intacta! Pensara que tivera origem no desconhecido pois a fissura era no tornozelo! Nas lágrimas de bocejo sentira o sabor tão amargo do fel da noite, da intragável memória de amor pairando. 
Sangue recém coletado, virgem na pele enfurnada onde jaz a ausência solar por toda a infinidade cósmica. Jardim dos pesadelos da existência em que chegara amparada pelos sapatinhos que vestira pela manhã.
Excomungada do presente, calejada na alquimia arteira e nem por isso menos membra do grupo de risco ao colapso. Ouvira os mais variados sons - parecendo-se com a bomboniére sortida que é sua organização mental.

Mulher aracnídeo

Ressalto que fazem míseros vinte minutos que a vítima deixara a câmara de tortura. Indizível ambiente pintado de violeta, cápsula doentia onde repousa o aracnídeo - que drena sentimentos como viúva-negra e espanta-se com a má conduta e culpa que é não se importar.
Vidros que dão acesso ao íntimo do espírito, são infinitos também quando realizando strike de estilhaços. O frenético ritmo de quebra é o caminho que persiste e sangro pela segunda vez em menos de uma semana. Roubos espontâneos.
Deusa da reclusão, catástrofe humana. A memória trava os dias futuros - amaldiçoa as emoções e logo após quebra o trinco da porta de acesso. 
Encontro-me em uma palidez sinistra. Culpo entidades que só sei que existem - não as conduzi ainda à pia batismal. "Oscilações: sádicas!" exclamo em ode à fantasia.
Apresento-lhe meus aposentos, mostrando alguns mínimos detalhes.  Irreparável, submeto-os à zona de desprezo. Sedo-os com encanto febril e absolvo-me com o fato de não realizar isso conscientemente. Preciso cobrir com folhas de babosa todo este estrago... Preciso de um campo minado da planta de cura sempre à disposição. Sou reclusão e forjar isso é um grande enojamento, rezo para que chegues em casa sem perversões às minhas custas.
Débil, procuro emissoras de rádio que nunca tem número certo. Ecoam nos números seguintes, músicas fujonas de fragilidade crônica! Deem-me carona para desaparecer da vergonha: a terceira vítima foi-se pela ruela entre a avenida coronária da cidade.
O vidro da porta é sujo quando olho-te de fora para dentro. Aparências em guerra de milênios com as emoções: de dentro para fora a iluminação que irradia é cristalina. É simples! O amor está embutido. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Fluido do lobo parte II

Desesperadamente, Lia desejando teu toque vigiou-o com o canto do olho - de soslaio, já deixando ruir seu íntimo em tua figura que vestia vermelho.
Cutucara suas costelas e minha cintura apertou-se, como se teus dedos fossem as barbatanas de um corset de puro aço.
Construída de fios de cobre capilares, transpassara a corrente elétrica fulminante que emites - ENGUIA! Deixando-a mais alva que papel e mais fina que a lua.
Tremera como filhote de lebre com frio, tentando atravessar o ártico férreo que é teu coração.
No zinco da linha, ficara pendurada pelo colarinho da camisa rosada: és o destino e ruidosa presença arrastada - oscilações e impotências sádicas!
Burlara então o fixador poderoso que possui tua pele febril, evitando lascar feixes de alumínio de tudo o que é vivo e belo ao seu redor - pois dela jorra o único perfume capaz de dar-lhe prazer, vetando assim qualquer estímulo que gostaria de ser cotado.
Envenenara com chumbo seu sangue de lebre.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Marchinha de carnaval

Feriados ardentes aclamados,
onde disfarço tua ausência -
em  presságios convulsionários.
Volúpia venosa,
perseguindo a morte prematura -
desertando do combustível vigoroso.
Palitos pontiagudos de saudades tuas,
à medida que meu peito infla - 
e deixa os seios perdidos em saliência.
Inchados, 
no físico esguio são distinção -
de mulher confusa em sua sapiência.
Doce, no tapete de timbres orgânicos 
valvulados -
permanente bandida noutro. 
Comparável ao delírio,
sou jogada ao cósmos e presa pelo pé ao vácuo -
submergida com tijolos nos tornozelos.
Fragmento de poeira,
granulado minúsculo -
sendo fugitiva boêmia.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Visita noturna

Vestindo uma camisola chapada e lilás, Lia anda sorrateira até o aposento enevoado chamado de Arquivo, o gato a segue - logo estirando-se em pose altamente sensual no meio do corredor. Em cada página que ela folheia do histórico de Álex, o ambiente é tomado por um odor indescritível e diferente - tamanha podridão que contém aquelas linhas, datadas minuciosamente.
A fumaça do incenso que traz como tocha, acaricia seu rosto com textura de pêssego branco, que, coberto de vaselina, flui desobstruindo os dutos das percepções diversas. Arrasta monólogos dramáticos que possui como manual e os encena para grandezas da natureza - como o vento noturno. Ele é sempre a melhor companhia: altamente capaz de incitar a reflexão, é a lâmina de poder natural para a reforma interna humana.
Logo tudo cai e soterra-a: avalanche de concreto branco, argamassa entrando através das tentativas de captar ar, empalhando os órgãos que imploram por água sem serem ouvidos.
O caminhão-pipa tarda a chegar. "Foi difícil encontrar o caminho" diz o motorista para ela. Irresponsável, seguira sem ao menos olhar as placas de sinalização. Precisa urgentemente de freios, algemas, cordas ou afins. Detenham-na ao pé da mesa quando for dormir!
Sempre confusa e perdida, é um prato transbordando de alimento para o acaso ser cruel. A pessoa sensata e atraente que existe dentro dela, se contorce tentando emergir de todo o lodo escuro que nas entranhas tem vida. Tão jovem, fardos tão densos!
Quando deita na cama, sua extrassensorialidade fica tinindo, e o que quer que toque com as mãos transforma-se em fruta batida com sorvete de creme e licor de cassis. Fusão milimétrica de amor e doçura malandra.
Pela manhã, acorda com a dúvida:" em que espécie de lugarejo terei passado as últimas horas? "

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Navio suicida

Narro a escuridão que busco incessantemente.
Abordo deste instinto suicida, deste navio parasita, contornando portos distintos sem ancorar - apenas exercendo sua sombra espessa na paisagem bela do mar.
Sem capitão, o navio está à mercê da força da natureza: navega seguindo as ondas e suas vontades suscetivas de morrer na praia. E, se numa dessas ficar raso demais para uma embarcação tão grande e pesada? O fim da jornada será encalhada!
Há uma pobre alma trancafiada no depósito de rum. Condenada ao exílio total - conservada pelo álcool presente. Sem opção de apodrecer, implora pelo alojamento da tripulação, onde poderia escolher um beliche minúsculo para definhar na horizontal. Quando menina davam-me florais conservados na mesma bebida: a história repete-se em seguida.
O universo usa-me para recreação, como criança com um barquinho de papel na pia do banheiro, encantada fantasiando o oceano e a rotina dentro de uma escuna. Ah! Seria tão bom uma escuna pesqueira, lotada de afazeres árduos, sem tempo para sair da direção! Somente perseguir os cardumes coloridos, guiados pelos peixes inofensivos, rodeados de simbolismos...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Renascer

                                  Depois de muito andar, Álex chegara à pequena chácara onde passara a infância. Pulara o muro descendo pela figueira centenária - a mesma do pátio dos fundos em que pendurava balanços nos galhos. Viera em busca de paz para seu espírito, guiado por uma batuta de maestro flamejante - que sempre estivera um passo a frente de seu olhar. Ela regera o caminho até a paisagem de seus anos cruciais perdidos: chegara e o berço estava quase irreconhecível. O rio que banha a propriedade subira de maneira absurda, invadindo já a casa...
                                   Com o mesmo objeto com que construíra sua jornada pela música - vocação com que nascera há vinte e quatro anos atrás  e afiara  a criatividade artística - abrira caminho para dentro de seu corpo físico: remexera os bolsos da calça, pegara o canivete e moldara o instrumento até torná-lo como flecha. Abrira uma uma fenda em sua veia. Um corte horrível na dobra do braço. Logo quando tentara relaxar deitado de lado, ele comprimira-se, adormecera.  Perdera a conta de quantas vezes esticara o membro já nos primeiros minutos de pós-corte, arrebentando os pontos. Todas as posições cansaram tanto que forão vítimas fáceis do esquecimento. Desconforto!
                                 A  sutura caseira desfizera-se em questão de  uma hora. Encolhera-se como filhote no útero da mãe, o sofá rústico o abrigando como feto, coberto por uma capa branca - a placenta. Deixara somente o braço esquerdo, que dilacerava de dor, estendido para a frente em posição de quem aguarda uma transfusão de sangue ou hemodiálise.
                                Se haviam justiceiros em plantão noturno dispostos a fazer sua purificação, ele não soubera dizer, somente repetira fielmente: "Não confio nem mesmo em meu pai", com a malemolência na voz de quem desacredita no próprio renascimento - mesmo sendo sua glória tão desejada. Tomado por obscuridades, escolhera esse extremo de limpeza e, caso contrário,  será o final da linha.
                               No sofá aguardara sua mãe vir conceder-lhe o carinho necessitado. Dias passaram, o corte aberto vertendo secreções de odor forte. Ela não viera nem mesmo para pari-lo - quanto mais para curar seus traumas e trocar-lhe o sangue. O único humano que aparecera fora o filho do antigo caseiro, que tirando-o do ventre fantasioso, mergulhara a cabeça de Álex na água que invade a casa, até quase provocar a perda total dos sentidos. Sem pena de adulto, seu primeiro nascimento acontecera novamente! 
                               Gritara pela sala inconformado da desgraça destinada, assistindo a água apossar-se de cada canto do terreno, sugando e subindo até tudo que ainda existia desaparecer. Ele sucumbira enfim as recordações, encontrando o fim junto delas. Era tarde demais para renascer melhor.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Intuição

                      Sintonias divergem o tempo inteiro e, cabe a nós a sabedoria imediata de dar ouvidos aos pressentimentos. Fortes, vagos, de relâmpago - todos são importantes. Vou a diferentes lugares e esforço-me para isso, sentindo que as frustrações poderão ser desesperadoras e como lebre assustada sairei correndo.
                      Encontro pessoas que deixam-me com asco. Olhos obcecados, lagartos vidrados! Tirem suas mãos grudentas da minha pele! Deixem-me livre da extração de energia que sofro em todos os momentos. Não quero ser o centro de desejo. Estou em um estado de ausência quase absoluta de meu Ego -  normalmente enamorado de holofotes -  que me faz querer transformar todas as luzes de palco em espécies diferentes de flores. Na natureza não importa quantas cores há: elas nunca chocam-se, somente harmonizam-se. Impossível o trovão!
                      Esqueço do combustível biológico e mais primitivo para a carne continuar quente: não sinto fome. O instante presente é tão incrível, lúdico acima de tudo: viro criança descobrindo um novo mundo.
                      Dobro minha alma, cubro-me de penas - coladas com caramelo - e salto da clausura para a rua. Atirando-me no travesseiro de ventos. Chego em casa, meu espírito agradece o alívio da tensão.
                      Por favor, intuição, grite como nunca! Do pé do meu ouvido às menores células. Creio que nunca mais a captarei com a frequência enorme de hoje, em que exasperava: ande para trás! Ali na frente será ruim...
Gostaria de descrever o que me vem a cabeça quando penso em ti. Como cangurus, as idéias pulam de um campo ao outro, numa velocidade de gato. Traiçoeiras de tão ágeis!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Jogo do espelho

O encontro estava marcado para logo mais. Ela suava frio. As gotículas pingavam de baixo dos braços e escorriam pela barriga, resfriando-se. Surgiu uma vontade aterrorizante de cair de vez no caos que estava sua cabeça. 
Ainda em casa, imaginou as paredes bordô do bar vestido de festa, já pequenas para os corpos espaçosos de casal eternizado - pois sempre há uma sepultura no meio. Bebeu gole após gole três copos de vinho, inflou o peito de coragem e chamou o táxi. Foi.
O rosto alvíssimo dele, deu lugar a um bronzeado cor de terra - onde nascem penugens que quase formam um canteiro castanho nas bochechas magras. Armou-se como de costume, agora também esteticamente: protótipo de barba.
Farpas disfarçando amor saíram de seus lábios - os mesmos que queria somente beijar. Tornou a existência mais penosa e medíocre! 
Lia vagou por um espaço de tempo minimamente arquitetado por ele para cegar e ferir a si mesmo. Aquela profundeza aquática que são os olhos azuis do ex amante, serviriam para afogá-la e de fato aconteceu.
Incapaz de perceber a esfera positiva que ela lançara-lhe a cada gesto... Impossível destrancar portas emperradas, inútil forçar janelas trancadas. 
O audaz inconsciente, perde as rédeas do ego e desmancha-se em grosserias. Acostumou-se a atuar em qualquer circunstância da vida ligada aos sentimentos. Cai na desgraça que é o medo de voltar-se para dentro.
Ambos destroem-se gratuitamente.
Quando somos presunçosos, começa a verdadeira comédia!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Conselho masoquista

                         Temperara com alho fortíssimo o coração. Ambos amantes sofrem, divertem-se com a situação para aplacar a crueldade.
Para o dia de saudade dela:
 -  Abra a porta do roupeiro, olhe para a direita da prateleira de cima. No canto, logo se deparará com um montinho - de aspecto macio e limpo - feito de peças mimosas de roupas feminíssimas, na paisagem sombria do teu quarto.
Abrigam-se no cantinho do móvel velho até o dia de hoje, pegue-as! Bebe teu leite de morango, logo devolva-as no impulso de repeli-las. Gotas do frasco de perfume ali também guardado, podem inchar o algodão e o ar com a essência, borrifada de costume no pescoço de sua dona faltante, que tornava-a entorpecente.
A memória antes já desperta, grita. O que o universo determinara enche-te de medos-  que acorrentas com distorções da frase: O que eu fiz?
Sozinho, bate a porta do guarda-roupas quase que em cena de cinema. Senta-te na baqueta, chora a trilha sonora.
   

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

No leito de hospital

Sirenes de emergência soam mais tristes do que alarmistas. Anunciam que nada é eterno, à medida que arrastam-te pelos corredores brancos. Ouço-a já do leito.
Meus olhos são reflexão, espelho d'água, abraços de adeus. Para estação de chegada não servem, são demasiado frios e não convidam - repelem. Tremo de idéias vagas, partidas e tonturas.
Ainda na cama, bocejo respirando o ar fresco das tardes de outrora, agradáveis e encharcadas de violeta, feitas de cores maleáveis - pintadas de ciano. No quarto, há espaço somente para o ruído, de leve, do ventilador - que dizias ser relaxante - ressoando como aqueles pássaros, fazendo-me acreditar que meu colchão é de grama e a memória presente.
Música de fato, não consigo escutar. As vozes alheias e o som do universo já preenchem meu grito interno de angústia. Ou o coração dilacerado pelo instrumental não suporta.
Fujo das lembranças!
Munidas de esperança,
que altera sílabas, 
embaralha imagens, 
distorce realidades.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pergunta para Lia

- O que acontece com a porta, quando batemos desesperadamente?
- Os cupins abriram buraquinhos em seu interior, transformando-a em uma espécie de favo de mel amadeirado, que deixaram-na oca e maleável - ainda que revestida por um disfarce de verniz. E a cada batida forte de desespero, despenca mais pózinho da madeira carcomida, que produz barulhinho de concreto caindo de leve. Sei disso, pois estamos agora ambas ocas. A praga roera a madeira por dentro, da mesma maneira que a desgraça roera minha essência mais profunda.


Marcas

Cicatrizes são marcas de guerra, de ferimentos severos e caracterizá-las como "eu sobrevivi" é deveras superficial: elas também podem significar amputações irreparáveis para as quais não há próteses - não há substituição. A vida continua desfalcada e, conviver com a perda é suscetível a mais perdas, entre elas a da sanidade.
O atingido então, questiona-se se não teria sido melhor morrer em batalha. Arrisca, por certos períodos de cólera intensa, dizer que sim e desta maneira os dias angustiantes tendem a aumentar até o colapso completo. Confusão de espaço e tempo, enjoos terríveis -quer expelir todas as lembranças que assolam sua cabeça! Não há conforto, pois como disse, não há reservas das propriedades vitais perdidas.
Muitas vezes a pessoa continua insistindo em existir, crise após crise, que intensificam-se com o passar do tempo. A cicatriz enfim, é enfermidade degenerativa, que após muitos anos decorrerem no âmbito da doença enraizada, o sentimento de perda que habita o ser por completo - físico e espiritual - é tomada também por confusão: somente sente os sintomas sem ao certo ligá-los a sua origem. São marcas que construíram sua personalidade, lotaram de pessimismo a pobre vítima que cresceu inconformada (...)