terça-feira, 27 de agosto de 2013

Permanências

A minha saudade é sufocada pela quantidade de roupas que visto em cada manhã polar. Fica dentro, arroxeando o peito, dificultando a respiração. 
Não há quem pegue em minhas mãos, de unhas mal cuidadas e peles mortas desfiguradas por entre meus dentes.
A minha leveza é tão frágil, que uma casca de banana no caminho é o bastante: escorrego nos antigos rastros. Tenho serenidades bem estendidas e extensas confusões sempre.
O raciocínio é simples - o mal da humanidade é conseguir domar a emoção.
Enquanto a culpa sucumbir-me e a flor de jasmim alimentar-me, eu estarei viva. Levando mais dezenas de vezes o mesmo susto corriqueiro, ao não encontrar meu gatinho escondido em brincadeira. Apresentando-me para mais um chinês perdido que, como eu, abrigaria-se abaixo de uma marquise fugindo da chuva. 
Tateando as ondas do sol refletidas na luminosidade do mar.
Enfim, permanecendo no aguardo da saída do calvário como uma mãe a espera do parto. Quanto tempo posso permanecer indeterminada? 
É muito tempo de fisgadas frias. Será mesmo só uma manhã polar?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A intransitividade

Naquela cedura da noite, Lia já estava petrificada em posição fetal, alumiada por uma velinha confortável de lamento. Arrumando suas tralhas lindíssimas, que tomam vida própria e escolhem em que canto da casa querem ficar. Escrevendo coisas que nem lembra, num papel que esqueceu.
Como disse, as luzes se apagaram e Lia ficou só - acendendo então Chet Baker no rádio.
 "Que tormenta, ter a libido frágil para a química corporal! Vejo-o, desejo-o na mais suja ardência. Só ele: gozar mediocridade, comemorar três segundos de ausência de passado e futuro. " Dizia - mexendo de fato os lábios - durante as noites com as amigas, por meio da linguagem ininterpretável que as mulheres possuem.
Uma delas, dera a dica de como proteger-se da chuva de meteoros neon que a atormenta a alma há anos: vestir sua boina marrom sempre. Almoçar, sobre ela. Impregnar cheiro de cigarro, nela. Fantasiar o cheiro fascinante do perfume do casaco dele, nela - feita de lã cor de terra.
O problema de ele nem sequer, a querer - estaria resolvido! Algo a amaria de veneração.
Mas passaram-se dois dias e em uma conversa aleatória, surgira o nome da antiga paixão de carne e osso -  e uma dormência nas palmas das mãos após ler a palavra "hoje" entusiasmada, irrompera seguida daquele nome. E mesmo com a boina, o dia é estragado apenas por uma verdade que não se aceita. 
"Quando há paixão furiosa e nefasta, garrafas são quebradas covardemente na rua, após uma noite de lua que envolve e surpreende. " E com isso o ego interno voltou a afrontá-la, vendando sua sabedoria em sussurros.
Com mais uma variação do mistério, falta-lhe pluralidade. Volta ao vinho seco.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fardo

Vim no navio cargueiro,
Suportando toneladas de serpentinas.
Lá embebi meus olhos em uma solução de conserva
Como verme autista de genes puros, 
entupindo-me de acessórios artificiais
                                                [ lancinantes.
Já vivi todas as cores de brumas;
a tampa de cada buraco selada de espuma
e o ensurdecedor lamento das sereias à noite
Sugando em paixão furiosa
                                                 [e nefasta
Que passa a comer tudo o que vê pela frente e possui belos olhos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Dormindo na ruína

Parece que o ar é maciço ao ponto de ser palpável, enquanto Lia chora a memória que sente falta unicamente de ti.
Tudo produz som; as fotografias escalam cada canto da casa. Escuta palmas vindas de trás das janelas grosseiramente enormes, da casa negra e amadeirada. O relógio engraçadinho da mesa, ora anda ora para. A passagem do tempo é fragmentada - deseja regressar dez meses.
Já? Questiona-se. Ele correu e os joelhos cansaram-se logo.
Embora o universo seja o mesmo, canta todos os dias uma ruína intraduzível, aguardando o dia em que não haverá ninguém para produzi-la ou conduzi-la.
Atravessa crises constantes e fluorescentes de adrenalina, tropeçando em atração explosiva por outra pessoa, sendo fatalmente envolvida no nada que também produz ilusões. Pobre apaixonada, a definhar.
Frequenta aquele seu bar preferido, sentindo-se uma centopeia abrindo túneis, atravessando um dos corredores com luzes vermelhas - apelidando-o de "corredor da paranoia". Passa por ela um cheiro forte de cigarro - sente novamente o gosto dele na boca.
É uma extremista irracional.
Será que é conseguir mover-se pela libido, a tal felicidade que as pessoas sentem? Sem estar deprimido o suficiente para suprimi-la? Sinal se saúde, sendo a libido boa a libido extrema e todo o resto libido deprimida?
É tarde, três fumaças fundem-se no clarão amarelo do abajur: incenso, chá quente, erva - ferozmente acomodada. Arranca cada pedacinho do rímel dos cílios, para segurar o término de mais um dia - acolhida nas paredes da casa pintadas de um cinza necrotério.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Exílio parte 46

Sobre a origem da vida
A linguagem das notas musicais muito próximas, produz um terceiro som feito da vibração mais barulhenta. Essa é a base para o norte da vida.
Mas a energia é tão flexível, fácil cair no caos! Tornar-se um molusco em uma concha de acústica repetitiva - com falta de destreza, ambígua.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Exílio parte 45

Sumi na névoa quase palpável da madrugada. 
Ninguém atrás ou a frente, a procura de minha perdição solitária.
Rondo o universo sozinha cambaleando na berlinda e fluidifico meus demônios, onde a fragilidade das notas musicais é extrema (de angústias espessas)
e quase não ouve-se, apenas sente-se.
Danço adivinhando-as.

Aviso de agosto

A agonia que sinto agora é a última morada do espírito.
É agosto sempre em minha alma e inverno por todo lugar onde piso.
Escrevo essas frases nua, contornando o canto da cama com meu corpo atirado - em extremo desabafo.
Perdi minhas roupas soníferas, permaneço obrigatoriamente dispersa no pânico da lucidez.
Amigos, não sigam o cupido bêbado que, libidinoso, desfila. É sua missão diabólica e nada mais.
Há o costume da conspiração: de abismar os olhos e beber do vinho mais seco.
Sugiro que sumamos, que voltemos para o asilo de onde nunca deveríamos ter saído. Onde vagávamos pelo corredor seguindo o cheiro dos amantes, rastejando e entrando em ebulição a cada mínimo gesto (gozo) do ser desejado.
Preste atenção: não há solidão nem luto nem cinismo nem vazio mirado contra nosso peito. Há o luto o cinismo e o vazio de cada um apenas.